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Indústria enfrenta desafios na integração digital para alcançar maturidade

Pesquisa revela nível de digitalização das empresas brasileiras e desafios na integração de tecnologias na indústria nacional; Por setor, a indústria está abaixo da média nacional no Índice Transformação Digital Brasil, da PwC

Por: Elaine Barroso/ Especial CIMM e Ind4.0      Exclusiva 27/11/2023 

Enquanto empresas de grande porte incorporam de maneira mais abrangente a implementação de tecnologias em suas operações cotidianas, as menores tendem a adotar ações e soluções pontuais, aponta recente pesquisa da PwC elaborada para medir o nível de maturidade digital das empresas brasileiras em 2023. O levantamento trouxe um Índice Transformação Digital Brasil (ITDBr) médio das empresas participantes em 3,3 - pouco acima da metade da escala, que vai de 1 a 6. No setor industrial, o índice ficou mais baixo ainda: 2,9.

De acordo com a pesquisa, independentemente do porte das empresas, todas demonstram espaços significativos para melhorias em sua trajetória de digitalização. Segundo Hugo Tadeu, diretor do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, muitas organizações têm vinculado a agenda da transformação digital somente aos avanços de tecnologias modernas.

“É preciso entender claramente qual é o problema do negócio, a disponibilidade para investimentos, a qualificação das equipes e o perfil do diretor digital. Mais importante ainda é criar uma disciplina para estabelecer processos digitais, alinhados com a alta liderança, demandas de clientes e novas habilidades das pessoas”, afirma.

Setores mais avançados

A pesquisa indica que o segmento de serviços financeiros é o mais avançado em relação à transformação digital, com índices acima de 4 e, em seguida, fica o setor de Tecnologia da Informação (TI). Para José Carlos Boareto, head de Indústria 4.0 da Fundação CERTI, as instituições de TI e instituições financeiras apresentam maiores avanços porque os processos acontecem num ambiente que já é naturalmente digital.
 
“Nestes setores você automatiza processos que já são digitais, mas na manufatura e na industrialização o cenário não é o mesmo. E o setor industrial de fato precisa de investimentos que correlacionam com a maneira como essas indústrias produzem. E isso vem atrelado à máquina, à robótica, ao armazenamento de transporte de materiais. Então, são investimentos que acabam demandando maiores recursos junto com os investimentos de transformação de projetos digitais. Só a transformação de processos digitais a nível de backoffice para a indústria não vai, de fato, trazer grandes ganhos de produtividade. A eficiência operacional de fato tem que vir combinada”, afirma Boareto.

Desafios para avançar na transformação digital

De acordo com a pesquisa da PwC, 51% das empresas têm dificuldades para incorporar a transformação digital nos projetos em vigor, e 50% também apontou dificuldade em estabelecer a digitalização como um processo estruturado. Esses são alguns dos desafios citados na pesquisa e eles que vão ao encontro do que José Carlos Boareto, da CERTI, tem visto.
 
Segundo ele, os desafios para avançar na transformação digital podem estar relacionados à dificuldade que as empresas brasileiras têm em captar recursos. “No cenário do nosso dia a dia, as empresas brasileiras não têm feito aportes significativos. Elas têm buscado aportes não diretos, via a algum tipo de incentivo. E tem a questão da limitação, principalmente quando as tecnologias de transformação digital atingem uma maturidade mais alta”, observa.
 
Para Boareto, além da baixa capacidade de investimento, quando existe algum investimento em tecnologia, a integração fica de fora. Ou seja, a falta de estratégia das companhias também é um fator que dificulta o avanço da maturidade digital. “Precisamos olhar para a transformação digital como um conjunto de ações. O primeiro passo, na minha opinião, deveria ser a construção de uma estratégia que preveja as tecnologias que vão, de fato, causar impacto para a fábrica e um plano de implantação integrado dessas tecnologias”.
 
Transformação digital na indústria não é só competência de TI. Imagem: Depositphotos

Transformação digital requer competência múltipla

Em 2022, a Fundação CERTI contabilizou crescimento de 60% na contratação de projetos tecnológicos quando comparado ao ano de 2021. De acordo com o profissional, a companhia tem tido um forte crescimento de demanda por projetos realmente capazes de transformar a natureza das instituições.
 
“Temos visto projetos que agregam diferentes competências e isso é uma coisa que, enquanto instituição, a CERTI consegue atender. A transformação digital não é uma competência só de TI, ela é uma competência bem ampla. E quando falamos da transformação digital na indústria, além da competência de TI, será necessário forte conhecimento na área de tecnologias operacionais (TA), de engenharia industrial e, muitas vezes, conhecimentos específicos da área como metalurgia e transformação de plásticos. Então, demanda uma visão mais ampla”, explica.
 
A busca por projetos com capacidade maior de impacto e que tenham ações transversais em diferentes frentes de conhecimento tem aumentado. E, de acordo co Boareto, numa visão macro, a organização tem recebido bastante demanda dos setores de metalmecânica, têxtil, alimentos no geral e indústria eletroeletrônica.

Retorno imediato

A pesquisa da PwC mostra que 69% das organizações ainda buscam com mais insistência processos de digitalização de impactos imediatos ou de curto prazo - buscando menos a transformação estratégica e cultural, processos que exigem mais tempo, mas são cruciais para a competitividade e a sustentabilidade do negócio. A pouca experiência em projetos digitais (28%) e a falta de visão de um modelo de negócios (21%) são outros problemas importantes.
 
Para Boareto, soma-se ainda aos demais empecilhos a falta de profissionais bem capacitados. “Acho que profissionais que têm uma visão mais ampla do impacto que as tecnologias têm para o negócios e que saibam quantificar isso em termos de grande resultado para a indústria, esse talvez seja um profissional muito em falta. E nós temos dado suporte justamente neste ponto”.

Benefícios da maturidade digital

Quando uma indústria já possui um ambiente digitalizado, isso facilita a obtenção de indicadores mensuráveis e sua conversão em retorno econômico. Segundo Boareto, entre os benefícios da maturidade digital estão a redução de estoques - equivalente a mais capital disponível - e melhorias no tempo de reparo -- que a CERTI mensura pelo indicador MTTR (Mean Time To Repair - Tempo Médio de Reparo). Isso indica que as máquinas permanecem ligadas por mais tempo, o que resulta em maior produtividade utilizando os mesmos recursos. Essa redução do tempo de reparo é benéfica para maximizar a eficiência operacional e otimizar os recursos da indústria. “Conseguimos um MTTR de 15%, que é bastante significativo”, conta.
 
“Outro resultado bem interessante é em relação ao tempo de atravessamento, que significa quanto tempo leva para iniciar e terminar uma produção. Nós conseguimos 30% de redução. Isso também reflete na necessidade de capital de giro porque se o tempo de atravessamento é menor, a chegada da matéria-prima e a saída de produto é reduzida”, conta Boareto.

Integração é a palavra-chave 

Isadora Faria, gerente sênior de Innovation da PwC Brasil, ressalta que a incorporação de tecnologias de maneira isolada não é o caminho mais correto. “Ainda que a adoção de tecnologias digitais, como inteligência artificial, e a criação de novos produtos e serviços sejam aspectos importantes para a transformação digital, os líderes precisam garantir que todas as iniciativas estejam conectadas à estratégia da companhia e possuam a governança adequada para sua execução. Caso contrário, esses esforços acabam se tornando projetos isolados, não geram os resultados esperados, e perdem espaço na agenda dos executivos.”
 
Já para o head de indústria 4.0 da CERTI, a expectativa com relação à maturidade digital das empresas é ver uma maior quantidade de dados virando informações integradas.
 
“Meu desejo é ter uma única fonte de verdade. Porque essa caminhada que várias empresas deram a diferentes tecnologias em diferentes locais, elas acabam levando a múltiplas fontes de dados. Informações totalmente integradas são a base para os algoritmos de inteligência artificial, e é isso que vai promover a eficiência operacional”, completa.
 
 
*Imagem de capa: Depositphotos

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