Duas notícias recentes chamaram minha atenção e, quando observadas em conjunto, dizem muito mais sobre a evolução da manufatura aditiva no Brasil do que parece à primeira vista.
Entre os dias 1° e 3 de setembro, o Instituto Senai de Santa Catarina recebeu uma auditoria da DNV relacionada à DNV-ST-B203, com foco em suas operações de manufatura aditiva metálica por PBF-LB/M. Segundo a própria instituição, foi a primeira auditoria desse tipo realizada na América Latina e representa uma etapa inicial de um processo mais amplo de qualificação.
Poucos dias depois, em 10 e 11 de setembro, foi a vez do Senai Cimatec receber uma auditoria técnica da DNV, com participação da Petrobras, também como parte do processo de adequação e qualificação relacionado à DNV-ST-B203.
Isoladamente, são dois avanços institucionais importantes. Mas, olhando o cenário de forma mais ampla, vejo algo ainda mais relevante: dois importantes centros brasileiros de manufatura aditiva metálica estão estruturando seus processos para atender a um mesmo referencial internacional de qualidade. Isso é um sinal claro de amadurecimento do nosso ecossistema.
Afinal, o que é a DNV-ST-B203?
A DNV-ST-B203 é um padrão internacional desenvolvido pela DNV para estabelecer requisitos e diretrizes relacionados à fabricação de componentes por manufatura aditiva. O documento nasceu fortemente ligado às necessidades dos setores de energia, óleo e gás e marítimo (ambientes nos quais uma peça não pode ser aprovada simplesmente porque sua geometria está correta ou porque apresentou bons resultados em um primeiro teste).
É preciso demonstrar como ela foi produzida, quais parâmetros foram utilizados, como o processo é controlado, como o material é rastreado e como a qualidade será mantida de uma fabricação para outra.
A versão atual da norma estabelece requisitos e orientações envolvendo aquisição de produtos fabricados por MA, qualificação de processos e peças, sistema de gestão da qualidade do fabricante, produção, ensaios e inspeção.
A DNV também possui uma especificação própria para conduzir a qualificação de fabricantes, prestadores de serviços e peças com base nesses requisitos.
Na prática, portanto, estamos falando de transformar algo que muitas vezes depende do conhecimento individual de especialistas em um processo industrial documentado, controlado e repetível. E essa diferença é enorme.
Comprar uma máquina é diferente de dominar um processo
Durante muitos anos, boa parte da discussão sobre manufatura aditiva no Brasil esteve concentrada na infraestrutura.
- Quem possui uma máquina de metal?
- Qual equipamento foi adquirido?
- Qual tecnologia está disponível?
- Quantos laboratórios existem?
Essas perguntas continuam importantes, mas acredito que estamos entrando em outra fase. Ter uma máquina de PBF ou DED instalada é apenas uma parte da equação. Para fabricar componentes destinados a aplicações críticas, é necessário controlar matéria-prima, equipamentos, parâmetros de fabricação, tratamentos térmicos, pós-processamento, metrologia, ensaios, documentação e rastreabilidade. Também é necessário garantir que o processo que funcionou ontem continue funcionando amanhã.
É exatamente nesse ponto que padrões como a DNV-ST-B203 ganham importância. A própria DNV destaca que uma das principais barreiras para a adoção da manufatura aditiva nos setores de energia e marítimo continua sendo a confiança nos processos e componentes produzidos. A padronização busca justamente reduzir essa incerteza e criar mecanismos reconhecidos de qualificação.
Em outras palavras: a indústria não compra apenas uma peça impressa em 3D. Ela compra a confiança de que aquela peça pode cumprir sua função.
O que Senai SC e Senai Cimatec representam nesse movimento
É justamente por isso que considero tão interessante observar os dois movimentos acontecendo praticamente ao mesmo tempo. Em Santa Catarina, a auditoria avaliou as operações de PBF-LB/M e o sistema de gestão implementado pela equipe do Instituto Senai. Na Bahia, o Senai Cimatec apresentou um ecossistema que integra o Bureau de Manufatura Aditiva, laboratórios de caracterização de materiais e metrologia, Centro de Mecânica de Precisão e competências de engenharia e projetos mecânicos.
São estruturas diferentes, com competências e históricos próprios, mas caminhando na mesma direção: criar capacidade nacional não apenas para fabricar peças por MA, mas para fabricá-las segundo processos qualificados e reconhecidos internacionalmente. Isso muda bastante o jogo. Principalmente quando pensamos em aplicações de maior criticidade.
O setor de óleo e gás ajuda a puxar essa evolução
Também não é coincidência que Petrobras e o setor de óleo e gás estejam próximos desse movimento. Nesse mercado, manufatura aditiva pode gerar um valor enorme. Uma peça produzida localmente pode reduzir meses de espera por um componente importado, diminuir estoques físicos e até viabilizar modelos de inventário digital.
A DNV destaca justamente a possibilidade de a MA contribuir para cadeias de suprimentos mais flexíveis, produção local e redução de lead time. Mas existe uma condição: quanto maior a criticidade da aplicação, maior a necessidade de confiança no processo.
É por isso que acredito que o avanço da manufatura aditiva em óleo e gás pode ter um efeito positivo sobre todo o ecossistema brasileiro. As exigências desse setor acabam elevando o nível de maturidade de fabricantes, ICTs, laboratórios, fornecedores de materiais, empresas de inspeção e profissionais. E muitas dessas competências posteriormente podem ser transferidas para outros setores industriais.
Um novo capítulo para a Manufatura Aditiva brasileira
Talvez o ponto mais interessante é perceber que, em diferentes regiões do Brasil, instituições começam a construir capacidade para atender aos mesmos padrões internacionais exigidos das principais cadeias industriais do mundo. Para mim, isso representa uma evolução importante. Estamos deixando gradualmente uma fase em que precisávamos provar que a manufatura aditiva funcionava. Agora precisamos provar que ela funciona de maneira repetível, rastreável, segura e economicamente aplicável dentro da indústria.
Essa transição pode parecer menos chamativa do que anunciar uma nova impressora ou uma nova aplicação. Mas talvez seja justamente ela que permita que a manufatura aditiva avance de projetos pontuais para aplicações industriais cada vez mais críticas no Brasil.
E, se mais ICTs, fabricantes e prestadores de serviços seguirem esse caminho, teremos não apenas mais capacidade de impressão 3D no país. Teremos um ecossistema mais confiável para fabricar.
*Imagem de capa: Depositphotos.com
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