“ENI 4.0 irá definir uma visão de presente-futuro sobre o que o país deseja”

Professor da UFSC, Ricardo Rabelo, lidera grupo que assume o projeto federal Estratégia Nacional da Indústria 4.0 (ENI 4.0).

Por: Angieli Maros/CIMM 17/09/2020  

Selecionado em edital público para coordenar um projeto inédito no país, o professor Ricardo Rabelo, titular do Departamento de Automação e Sistemas do Centro Tecnológico (CTC) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem um grande desafio pela frente. Pelos próximos oito meses, o docente e representantes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e da pasta da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, do Ministério da Economia (ME) terão a missão de elaborar a Estratégia Nacional da Indústria (ENI) 4.0, documento que deverá sustentar políticas públicas para o setor nos próximos 10 anos.

As discussões e os resultados são aguardados com anseio, tamanha a urgência de estabelecer novos modelos e processos industriais que sejam, ao mesmo tempo, abrangentes e elevem a competitividade da indústria brasileira. É essa, afinal, a meta da ENI 4.0, cujo foco é se converter em uma diretriz de Estado para ajudar as empresas do país. 

“O trabalho irá possibilitar ao governo e aos agentes privados atuarem com maior clareza na formulação de ações mais concretas conjuntas para o desenvolvimento da indústria nacional, diminuindo sobreposições e desperdício de recursos e maximizando o seu impacto na sociedade”, adianta a o professor. 


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Em entrevista ao CIMM, Rabelo comentou sobre as perspectivas do Brasil em relação à Indústria 4.0 e sobre os trâmites e os desafios do projeto, que já começou a correr em direção a seus propósitos. “A ENI 4.0 não visa produzir mais um documento, um ‘papel’, mas, acima de tudo, provocar ações concretas que ajudem as empresas e todo ecossistema de inovação a melhorarem efetivamente”, afirma o docente. 

Do que se trata o projeto Estratégia Nacional de Indústria (ENI) 4.0 e qual seu principal objetivo?

As profundas transformações que estão sendo operadas na indústria das principais economias do mundo, com adoção intensiva de modelos de produção e tecnologias chamadas genericamente de 4.0, demandam a elaboração de um documento de âmbito nacional que contemple a visão dos diferentes atores da política industrial e empresarial e da sociedade de forma geral, bem como os interesses e prioridades do Brasil relativos ao futuro da sua indústria. Percebendo essa necessidade, foi decidido pela elaboração da ENI 4.0. A Estratégia Nacional da Indústria 4.0 irá definir uma visão de presente-futuro sobre o que o país deseja. Um mapeamento do estágio de desenvolvimento do setor se desdobrará em um conjunto de ações e metas, em diferentes aspectos, que possa a ajudar as empresas brasileiras a atingirem um mais avançado nível tecnológico e melhor nível de desenvolvimento socioeconômico.

E por que é importante estabelecer uma estratégia para a indústria 4.0?

A despeito de várias iniciativas governamentais voltadas para a adoção de tecnologias 4.0 pela indústria nacional, ainda não existe uma estratégia de âmbito nacional para o tema. Existe sim uma série de iniciativas nessa direção, geradas por diferentes entidades representativas e em documentos de governo, mas que foram idealizadas de forma mais direcionada a certos setores, mas não completamente integrada a uma visão ampla de Estado e de outros setores. Dessa forma, é necessário construir um documento de referência, unificador, que expresse uma política de Estado para a indústria 4.0 brasileira, em alinhamento com o pensamento dos setores público e privado em relação ao tema.

Por que ele é importante neste momento?

Basicamente porque o país não pode mais esperar para dar um grande salto de competitividade. Há inúmeros mapeamentos e excelentes diagnósticos gerados por várias instituições, e é mais do que chegado o momento de fazer isso tudo convergir para, efetivamente, se criar uma resultante mais unificada e, consequentemente, mais efetiva. Todos os países mais desenvolvidos e os equivalentes ao Brasil têm estabelecido suas políticas na área para dar melhores condições de inovação e de competitividade às suas empresas. A ENI 4.0 não visa produzir mais um documento, um “papel”, mas, acima de tudo, provocar ações concretas que ajudem as empresas e todo ecossistema de inovação a melhorarem efetivamente.

A partir de quais eixos ou etapas se desenvolverá o trabalho?

O trabalho não começará do zero. Há um conjunto bastante interessante de documentos recentes gerados por diferentes importantes iniciativas, como a CNI e Câmara da Indústria 4.0, resultados de centenas de horas de reflexão e trabalho em que foram ouvidas centenas de pessoas especializadas. Pretendemos aproveitar tais resultados e propor o melhoramento de alguns aspectos. Mas, em termos gerais, serão mantidos os eixos-base já definidos pela Câmara da Indústria 4.0 : Capital Humano; Desenvolvimento Tecnológico e Inovação; Cadeias Produtivas e Desenvolvimento de Fornecedores; e Regulação, Normalização Técnica, Infraestrutura e Investimentos. O prazo final de liberação é de 6 a 8 meses. Na etapa 1 teremos uma primeira versão da ENI 4.0. Na etapa 2, ela será disponibilizada para discussão pela Câmara da Indústria 4.0, buscando seu refinamento. Na etapa 3, disponibilizaremos a ENI 4.0 para consulta pública nacional, com a ideia de obter sugestões. Finalmente, na etapa 4, a ENI 4.0 final será disponibilizada como a visão de Estado para com a Indústria 4.0.

De que forma poderá ajudar o fortalecimento do setor?

Com uma visão estratégica de curto a longo prazo e ações unificadas e globalmente coerentes, os mecanismos de ação, direcionamentos e priorizações trarão resultados mais rápidos e consistentes. Paralelamente, haverá um natural amadurecimento dos atores em termos de massa crítica para com o modelo e sua adoção no Brasil, o que será fundamental para o constante aprimoramento da ENI 4.0.

Quais serão os maiores desafios do trabalho?

Ler e sintetizar materiais e, principalmente, ouvir, ponderando diferentes pontos de vista. Só assim teremos algo que realmente funcione, que atinja seus resultados, que carregue em si mesmo a motivação das pessoas e de todos os envolvidos. Os atores precisam se enxergar no plano, enxergar quais são seus papeis no todo, de como podem ajudar a permanentemente refinarmos a ENI 4.0, e de como a ENI 4.0 pode concretamente proporcionar oportunidades de negócios e melhorias gerais para as empresas e país como um todo. A estratégia não pode ser algo que centralize, que engesse. Ao contrário, deve apontar direções que facilitem a incorporação do modelo 4.0 pelas empresas e sociedade. Num segundo momento, possivelmente um desafio adicional seja o de buscar um alinhamento mais amplo da ENI 4.0 com outras estratégias nacionais, como a da Inovação, bem como alargar o escopo do trabalho para outras áreas, com a do agronegócio e saúde.

Em uma visão de especialista, quais são as principais políticas públicas que faltam para o setor e que poderão ser elaboradas a partir do projeto, já que esta é uma meta da ENI 4.0?

São inúmeros os problemas, que de certa forma, se traduzem naquela organização da Câmara da Indústria 4.0: capital humano; o incentivo à modernização, inovação e adoção de modernas tecnologias; a mudança de mindset das empresas sobre a importância de se integrarem a maiores e mais rentáveis cadeias de valor nacionais e internacionais e, com isso, aumentarem a produtividade e níveis de qualidade; e tem toda a questão de regulação, normas técnicas e investimento em infraestrutura, por exemplo, a de comunicações. 

Soma-se a isso ainda o grande hiato que existe, em termos gerais, entre as universidades e as empresas. Há excelentes iniciativas para aproximar instituições de pesquisa com a indústria, como os centros de inovação do Senai, a Embrapii e alguns centros de ensino nas UFs, como o Centro Tecnológico da UFSC, que vem se consolidando como um centro de referência nacional na área. Mas muitas universidades têm enormes dificuldades, por várias razões, de tangibilizar isso em valor para o mercado, em ajudar as empresas a transformarem isso em PIB, em geração de riqueza. Do outro lado, muitos empresários têm uma visão distorcida do papel das universidades e de desconhecimento das formas e aspectos legais de cooperação com as universidades.

Finalmente, e de forma simplesmente essencial a meu ver e de inúmeros outros especialistas que tenho lido e ouvido, há também a parte de financiamento. Dada a enorme crise econômica pela qual passa o Brasil e a consequente escassez de recursos, teremos que ser criativos na elaboração de modelos de financiamento para as empresas, universidades, ecossistemas, etc., para que realmente as ações da ENI 4.0 possam efetivamente decolar.

Temos importantes editais de apoio nessas direções, por exemplo da Finep e do recente Programa ROTA 2030 (sucessor do Inova Auto). Mas claramente os recursos são insuficientes para a demanda. Em todos os países com uma política clara e oficial de Indústria 4.0 há um forte investimento do Estado. O que varia são as formas e mecanismos de incentivos para o investimento privado.

O quanto as indústrias brasileiras hoje, de todos os portes, estão próximas de uma modelo 4.0?

Em termos gerais, definitivamente não estão próximas. Mais de 99% das empresas do Brasil são micro, pequenas e médias, com um sem número de limitações em termos de capital financeiro, organizacional, tecnológico e humano, o que significa que, para elas, o processo de transformação é mais árduo. Por outro lado, justamente por serem menores, podem ser bem mais ágil o processo. Já as grandes empresas, muitas delas vêm já realizando investimentos substanciais nessa direção. Se considerarmos as visões macro de das quatro Revoluções Industriais, há mapeamento feitos que indicam que, em termos gerais, estaríamos ainda no nível “2,5”, numa transição para a 3ª. revolução, fortemente marcada pela introdução da automação de processos e informatização das empresas.

Levantamento publicado em 2019 pelo Senai com 418 respostas de empresas (de todos os portes) mostra que a adoção de tecnologias habilitadoras da Indústria 4.0 nos seus processos produtivos, numa escala de 0 a 5, a maturidade 4.0 estava em 2,45 na média. Separando essa amostra, percebeu-se que as 50 melhores tinham uma maturidade média de 3,52 e as 50 piores de 1,61. Por outro lado, é importante que se tenha claro que a mudança do que se chama de Indústria 3.0 para a 4.0 é um processo. Longo, custoso, e realizado gradualmente. Não existe solução mágica e única. A transformação para Indústria 4.0 não é apenas tecnológica. É, acima de tudo, de mindset das pessoas e dos tomadores de decisões. São demasiadas as mudanças a serem feitas. Por isso é importante ir passo a passo, sob pena de se pôr em risco a própria sustentabilidade da empresa durante o processo de mudança.

As indústrias brasileiras apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento e a remodelação propostos?

Como eu disse anteriormente, eu diria que, em termos gerais, não. O ambiente de negócios geral precisa ser ainda muito melhorado, o modelo de financiamento melhor equacionado, o processo em si de transformação de uma empresa em 4.0 é ainda cheio de riscos e com poucos modelos robustos de melhores práticas. O grau geral de formação das pessoas e de muitos gestores é bem aquém do necessário, fazendo com que eles tenham, inclusive, dificuldade de perceber “para que essa tal de Indústria 4.0 serve para mim e como eu consigo transformar isso concretamente em melhores níveis de sustentabilidade para a minha empresa?”. Por outro lado, e graças a ações de inúmeras entidades, tem havido uma grande pressão par movimentar o país nessa direção. Isso é bem importante, pois quando há vontade para a mudança, já é “meio caminho andado”, como se costuma dizer.

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