Vou iniciar esta edição recorrendo a uma analogia para demonstrar, de forma prática, qual deve ser o verdadeiro perfil de um gestor cujo objetivo é conduzir uma Fábrica Inteligente 4.0.
Mais do que dominar tecnologias, sistemas ou equipamentos, esse gestor precisa ser capaz de enxergar, compreender e administrar o processo como um todo. Sua principal responsabilidade não está em executar as operações, mas em criar as condições para que elas aconteçam de forma previsível, eficiente e sustentável.
Para entender melhor esse papel, podemos recorrer a uma situação conhecida por todos: o piloto de uma aeronave durante a aterrissagem. É justamente nesse momento que sua capacidade de gestão, percepção e tomada de decisão precisa estar mais concentrada no processo e em seus resultados.
Durante uma aterrissagem, o piloto de uma aeronave tem seu foco totalmente voltado para a segurança e a precisão do toque na pista, mantendo o controle da trajetória, da velocidade e da energia.
Entre todos os indicadores disponíveis no equipamento, ele segue apenas aqueles que realmente lhe interessam nessa hora. São eles:
- Trajetória — estar alinhado na rampa correta de aproximação.
- Velocidade — velocidade de aproximação dentro dos parâmetros.
- Altitude e distância — saber exatamente onde está em relação à pista.
- Condições externas — vento, chuva, visibilidade e estado da pista.
- Configuração da aeronave — trem de pouso, flaps e demais ajustes.
- Ponto de toque — garantir que o avião toque dentro da zona adequada.
- Plano de contingência — se a aproximação não estiver estabilizada, arremeter é uma opção normal e prevista.
O piloto não olha para cada instrumento com a mesma importância. Ele utiliza dezenas de informações, mas mantém o foco no resultado crítico: uma aproximação e um pouso seguros.
Na gestão operacional de uma Indústria Inteligente, deve acontecer algo semelhante: o gestor não deve se perder na enorme quantidade de dados disponíveis, e sim identificar os indicadores críticos que determinam o desempenho da operação e agir sobre eles imediatamente, quando necessário.
Assim, comparando as duas situações descritas acima:
- No avião: Dados dos instrumentos → interpretação → decisão → correção → pouso seguro.
- Na Indústria Inteligente: Dados da operação → interpretação → decisão → correção → resultado planejado.
O gestor é aquele elemento cuja competência e capacidade devem ser suficientes para transformar a tecnologia disponível em resultados.
Apesar da enormidade de dados que a tecnologia lhe disponibiliza, deve ser também disciplinado o suficiente para definir seu foco de atuação dentro daquele sistema operacional.
A tecnologia sustenta a gestão, não a substitui; portanto, não basta saber instalar sensores, automatizar máquinas ou utilizar inteligência artificial: é necessário saber integrá-la aos processos e às pessoas, dentro de uma estratégia preestabelecida.
O gestor de uma Indústria Inteligente deve obrigatoriamente se concentrar em gerenciar o desempenho do sistema produtivo e evitar se envolver em evidências que orbitam seu foco.
Ao meu entender, estas três funções são básicas e imprescindíveis para gerir uma cadeia produtiva com eficácia:
- Desempenho da operação: A gestão deve acompanhar, de forma integrada e em tempo real, os principais indicadores, com o objetivo firme de converter toda a capacidade produtiva em resultado operacional.
- Processos: A gestão deve garantir que todos os processos operacionais foram propriamente desenvolvidos, automatizados e digitalizados. Não adianta automatizar nem digitalizar dados irrelevantes e desperdícios.
- Pessoas: A gestão deve ter a capacidade de mudar as competências e a cultura operacional, bem como delegar as responsabilidades e as tomadas de decisão aos seus colaboradores.
Na minha experiência, quando uma cadeia produtiva apresenta desempenho abaixo do planejado, a investigação deve necessariamente passar por esses três elementos: desempenho, processos e pessoas.
Seria bom lembrar que, na Indústria convencional, as empresas buscavam automatizar as tarefas e, hoje, na Indústria 4.0, o foco maior está na integração e no gerenciamento em tempo real do sistema operacional.
Na indústria inteligente, o volume de informações disponíveis é enorme e cresce em uma velocidade cada vez maior. Por isso, a capacidade de reação e tomada de decisão precisa acompanhar esse mesmo ritmo. Estamos, portanto, diante de uma importante evolução no perfil do gestor e de cada um de seus assessores.
A Indústria 4.0 oferece conectividade, automação e inteligência. No entanto, a gestão, a capacidade de análise e a tomada de decisão são os fatores que transformam todas essas ferramentas em desempenho, eficiência e resultados concretos.
Quanto mais inteligente for a indústria, mais prático e objetivo deve ser o gestor.
*Imagem de capa: Depositphotos.com
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