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Canal Indústria 4.0

Máquinas que aprendem: o uso de inteligência artificial na avaliação de riscos industriais

A partir de um panorama de três décadas de pesquisa, colunista mostra como o machine learning pode prevenir falhas e elevar a inteligência operacional nas fábricas

Por: Ederson Almeida      Exclusiva

A aplicação de algoritmos de machine learning (ML) na indústria já não é mais uma aposta futurista, mas uma realidade consolidada. No entanto, há uma diferença gritante entre usar a tecnologia e usar bem. É exatamente aí que a ciência pode nos empoderar.

Mas afinal, o que é machine learning? Trata-se de um ramo da inteligência artificial que permite que computadores “aprendam” a partir de dados, sem serem programados linha por linha para cada situação. Em vez de seguir regras fixas, o sistema identifica padrões e toma decisões com base em experiências anteriores — como se fosse um analista que melhora sua capacidade de prever falhas, riscos ou comportamentos quanto mais dados ele analisa. É como ensinar uma máquina a reconhecer sinais de perigo ou oportunidades a partir de históricos e variáveis do processo industrial.

Recentemente, tive acesso a um estudo fundamental publicado por Wei et al. (2023), que analisou mais de 3.000 artigos científicos utilizando bibliometria para entender como o aprendizado de máquina tem sido empregado em avaliações de risco industrial ao longo de três décadas. O que mais me impressionou foi o quanto a literatura científica — muitas vezes ignorada por profissionais industriais — pode nos apontar o caminho seguro, eficaz e inovador para aplicar IA em nossos processos.

Três fases de amadurecimento científico

O estudo mapeia três fases distintas:

  • Fase de Exploração Inicial (1991–2007): Nessa etapa, ML ainda era tímido, com foco acadêmico em métodos como redes neurais e lógica fuzzy aplicados a problemas específicos, sem grande penetração prática.
  • Fase de Desenvolvimento Estável (2008–2016): A popularização de sensores industriais, aumento da capacidade computacional e advento de plataformas IoT estimularam a adoção mais sistemática de ML em áreas como manutenção preditiva e análise de falhas.
  • Fase de Crescimento Acelerado (2017–2022): Aqui entramos de vez na era da Indústria 4.0. O uso de algoritmos como Random Forest, Support Vector Machines (SVM), aprendizado profundo e redes neurais convolucionais explodiu em áreas críticas como segurança de máquinas, detecção de falhas e avaliação de riscos ambientais.

Quais são os hotspots? E como eles nos orientam?

O estudo de Wei et al. (2023) revelou três áreas de calor (hotspots) de pesquisa:

  1. Desenvolvimento de algoritmos personalizados: não basta aplicar ML genérico; é necessário modelar com dados específicos do setor.
  2. Avaliação de riscos em sistemas ciberfísicos (Indústria 4.0): ambientes com sensores, atuadores e controle distribuído exigem modelos adaptativos.
  3. Veículos autônomos e mobilidade inteligente: aqui, o aprendizado contínuo e o tempo real são cruciais — conceitos aplicáveis também na segurança ocupacional.

Esses pontos se conectam a tendências práticas observadas em estudos como os de Fang et al. (2022), que aplicaram redes neurais profundas para prever riscos em plataformas offshore, ou como Jin et al. (2020), que usaram Gradient Boosting Machines para detectar falhas em turbinas eólicas antes de qualquer sintoma físico ser perceptível.

Da teoria à prática: o que a indústria precisa fazer?

Se você é gestor, engenheiro ou tomador de decisão industrial, aqui estão os próximos passos, embasados tanto na ciência quanto na experiência prática:

  • Mapeie seus dados históricos e sensores em tempo real: algoritmos só aprendem se há dados de qualidade.
  • Classifique os riscos com base no histórico de eventos e gravidade: essa estrutura pode alimentar modelos supervisionados.
  • Inicie com projetos pilotos em áreas críticas: manutenção preditiva, falhas elétricas, e análise de vibração são excelentes pontos de partida.
  • Considere abordagens híbridas: combine métodos tradicionais (como FMEA e HAZOP) com ML para ampliar sua assertividade.
  • Trabalhe com equipes multidisciplinares: a colaboração entre engenheiros de produção, cientistas de dados e operadores é vital.

O estudo de Wei et al. (2023) não apenas nos mostra o que já foi feito. Ele nos provoca a agir com mais inteligência. Estamos entrando em uma nova fase da maturidade industrial: aquela em que a inteligência preditiva não é luxo, mas condição de competitividade.


Um exemplo concreto do uso de machine learning na indústria vem da Siemens, que aplicou redes neurais artificiais para realizar manutenção preditiva em motores industriais. Utilizando sensores para coletar dados como vibração, temperatura e corrente elétrica, a empresa treinou modelos capazes de prever falhas com dias de antecedência, reduzindo paradas não programadas em até 30% e otimizando os custos de manutenção em larga escala (Zhou et al., 2020). Este tipo de aplicação mostra como o aprendizado de máquina deixa de ser apenas teoria e se torna uma poderosa ferramenta de transformação operacional na Indústria 4.0.

A boa notícia? O conhecimento já está disponível. E, melhor ainda: podemos construir essa jornada de forma incremental, ética e centrada nas pessoas. O que a ciência mostra, cabe a nós transformar em prática.

Referências

  • WEI, Ze et al. Insights into the Application of Machine Learning in Industrial Risk Assessment: A Bibliometric Mapping Analysis. Sustainability, v. 15, n. 8, p. 6965, 2023. DOI: https://doi.org/10.3390/su15086965.
  • FANG, K. et al. A deep learning framework for hazard prediction in offshore oil and gas platforms. Journal of Loss Prevention in the Process Industries, v. 74, 2022.
  • JIN, X. et al. Early fault diagnosis of wind turbines using gradient boosting decision trees. Renewable Energy, v. 156, p. 1076–1089, 2020.
  • ZHOU, Q.; XIA, Y.; LIU, J. Predictive maintenance of industrial motors using sensor fusion and deep learning. IEEE Transactions on Industrial Informatics, v. 16, n. 8, p. 5464–5474, 2020. DOI: https://doi.org/10.1109/TII.2020.2966820
*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Ederson Almeida

Ederson Almeida

Inovação e Inteligência Artificial

Sou Empreendedor, CEO da empresa GAUTICA, Professor e Desenvolvedor de Software com mais de 20 anos de experiência no setor, especializando-me em Inteligência Artificial e Transformação Digital. Atualmente, estou avançando em meu doutorado, focando em utilizar a IA para melhorar a segurança no local de trabalho.

Minha trajetória acadêmica é marcada pelo compromisso com o ensino e a inovação. Ministrei aulas no Mestrado Profissional em Engenharia de Produção, capacitei centenas de programadores e leciono programação avançada no CETEC. Como mentor de inovação, orientei inúmeros jovens em projetos de empreendedorismo através da Junior Achievement, impactando significativamente suas carreiras.

Atuo como palestrante e consultor em IA e transformação digital, impulsionando iniciativas estratégicas que integram tecnologia e objetivos empresariais. A minha segunda empresa, Edertec Academy destaca meu compromisso com a educação e capacitação de profissionais com habilidades de ponta, preparando-os para o cenário digital em evolução.

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